
Aquela manhã que eu nunca vivi.
Daquele mesmo dia que nunca me esqueço!
Naquele momento de um existir.
Que por mais que me lembre ainda desconheço.
Foi ali que senti que tudo era bom.
Ali que percebi que havia valido a pena!
No momento em que o mundo se coloriu de um novo tom.
Foi ali, naquela manhã, que tive a sensação tão amena.
Eram quase oito horas, de um dia quase frio.
Eu poderia escutar os passarinhos lá fora, se quisesse.
Ainda podia ouvir o sssshhhhh, ali perto havia um rio.
Era um bom pedacinho do tempo em que ali estivesse.
Estava na cama, e as cobertas eram macias como neve que acabou de cair.
Embora, na temperatura, parecesse leite que acabei de mornar!
Olhando ao redor, parecia que sempre estive aqui.
Mas olhando de novo, eu nem lembrava daquele lugar.
Desfrutei um minuto, ou se foram dois, ou cinco, nem me lembro mais.
Me movi lentamente e senti um peso em cima de um travesseiro amassado.
Era aquela figura, abarrotada em cobertas, que irradiava paz.
Reconheci, como se sempre estivesse ali, meu amor, do meu lado.
Levantei, de súbito, e pensei, mas que realidade é essa?
Por mais fantástico que fosse, a fantasia me levou a estranheza.
Como poderia ter chegado naquele ponto tão depressa?
Mas ah, eu sou tão avoado, preferi esquecer, pensar só na beleza.
Era uma casa pequena, mas perfeita em todos os sentidos!
Tinha luz na medida certa, móveis e outras coisas na mesma medida.
Da janela eu vi o jardim, o que me deixou ainda mais aturdido!
Caminhei como quem anda em lugar estranho e senti da janela a cheirosa brisa.
Nunca havia sentido o cheiro, mas lembrava que era de grama, não sei o motivo.
As borboletas começaram a voar na barriga, e comecei a me sentir inquieto.
Hipnotizado fui caminhando, senti um arrepio de risos pisando no assoalho liso.
Abri a porta dos fundos, estranho, eu tinha uma porta dos fundos, e precisei chegar mais perto.
Ali, havia um quintal, com uma calma que poderia durar mil anos.
Eu vi aquele cachorro, nosso lindo vira-latas, dormindo feito um tapete.
Quando cheguei no quintal, ele veio, me cheirou e voltou aos seus sonhos.
E eu, me sentei numa daquelas quatro cadeiras e me entreguei ao deleite.
Pensei na vida, no amor, no tempo e em todas as coisas!
Olhei meu amor ainda repousando, através da janela que mostrava o quarto.
Aquele instante durou uma eternidade, talvez até muitas outras.
Foi ali que eu percebi, eu finalmente estava feliz, era um fato!
Eu trabalhava em casa, sabia disso por ver meu quadro de tarefas na parede.
Escrevia pra algum lugar, não lembro pra onde, mas era feliz!
Também havia uma horta, um pequeno quadrado de uma estufa meio verde.
Nessas duas coisas eu sabia que tinha tudo que sempre quis.
Liguei o som da sala, um pouco de James Blunt pra começar o dia.
Quem sabe não fosse verdade?
Comecei a fazer o café, logo vi, tinha companhia.
Era meu amor, nesses poucos instantes, eu já estava com certa saudade.
Nos sentamos na mesa, nem falamos mais, só vivemos.
Demos bom dia com um beijo carinhoso.
Comemos, bebemos, sorrimos, amamos, ali, realmente vivemos!
E cada segundo daquilo parecia, a cada segundo, mais precioso.
Meu amor me levou pela mão, e sentamos naquele quintal.
Passamos um tempo ali, ainda sem nada falar.
Então me pediu um beijo, foi mais apaixonado que o normal.
E foi naquele momento que havia de acabar.
Daquela manhã eu me lembro, mas acho que nunca vivi.
Como poderia me esquecer do momento mais perfeito?
Meu amor dormia tão longe, não sabia de tudo aquilo que vi.
Então, de súbito, escrevi, tentando tornar o momento, perfeito, refeito.
Na minha manhã feliz, tudo era bom, e valia a pena!
E são com essas palavras, que posso descrever com exatidão, o que significa felicidade plena.



